Cá do Monte
Longe da confusão e do rebanho.
2009/09/27
a dose de desequilíbrio
O que é certo é que nos 3 ou 4 dias seguintes todo aquele plano do meu sócio se desvaneceu na minha cabeça porque o compreendi completamente impraticável no caso da minha empresa (necessidade de estar sempre na crista da onda, exigência dos clientes e concorrência) mas também porque me apercebi de como estas coisas funcionam na vida real.
Olhando para a história das pessoas de sucesso (ou apenas de pessoas com bons rendimentos), percebe-se que chegaram a esse nível porque fizeram sacrifícios ou arriscaram muito (às vezes as duas coisas) ou então porque herdaram a situação. Interessam-me as duas primeiras formas e não me interessa a última, até porque esta última é sempre transitória para a normalidade ou para as outras duas.
Olhando para a vida de vários empresários de sucesso, portugueses ou estrangeiros, percebe-se facilmente que sempre sacrificaram a sua vida familiar. Levantam-se cedo e chegam tarde a casa. Só vêm a família depois do jantar. Não é à toa que, muitas das vezes, a mãe de família tem de ficar em casa para compensar a vida profissional do pai. Por exemplo, Bill Gates, apesar de toda a sorte do mundo, só conseguiu tempo para uma vida familiar aos 40 anos. Os actores de Hollywood ganham rios de dinheiro mas a sua vida familiar ressente-se sempre do seu ritmo de trabalho e quando se dedicam efectivamente à família acabam por desaparecer dos ecrãs. Mesmo um “simples” jogador de futebol como o Ronaldo, teve de abandonar a família aos 12 anos para se dedicar à sua arte – não deve ter sido fácil.
Noutros casos de sucesso correm-se grandes riscos daqueles “tudo ou nada”. Já o meu pai me dizia “quem não arrisca não petisca”. Um grande número de negócios de sucesso começam com pessoas de coragem que abandonam grandes empresas e hipotecam todos os seus bens (e à vezes os da família que acredita neles) para iniciarem a sua própria empresa.
É como um sistema de vasos comunicantes, ou uma balança – tendem a ficar todos ao mesmo nível, isto é: na média. Sempre que alguém quer fazer algo acima da média tem de abdicar de alguma coisa: de tempo, da família, da segurança. Muitas vezes dou por mim a pensar “eu não era capaz de abdicar das coisas que esta pessoa abdicou para chegar onde chegou”. É uma posição que assumimos diariamente, temos 4 vectores: família, sucesso profissional, tempo, segurança. Se apostarmos na família, vai sobrar menos tempo para nós e para o trabalho, se apostarmos no nosso tempo, vai sobrar menos para dividir entre o trabalho e a família, se apostarmos no sucesso profissional vai sobrar menos tempo para nós e para a família. Provavelmente, se apostarmos mais na família o trabalho pode ficar menos seguro, se apostarmos tudo no sucesso profissional vamos ter de assumir riscos ainda maiores.
Cada um de nós sabe se prefere mais o equilíbrio ou a vertigem do desequilíbrio. Se prefere o equilíbrio, precisa de manter um perfil menos agressivo e saber escapar a situações mais exigentes, mantendo a sua integridade frontalmente sem ludibriar expectativas. Se não pode viver sem a vertigem, convém saber até que ponto quer ou pode ir e jogando com que variáveis. O difícil é perceber de antemão em que pratos da balança (e quanto) pesam os passos que damos. A arte está em saber manter a dose de desequilíbrio que conseguimos gerir.
2007/06/06
XML-RPC Sucks!
2005/12/10
O Burger King é de direita?
Eu diria que o Burger King é de direita. Pelo menos em Espanha (os espanhóis sempre foram mais espertos que nós, não é verdade?).

Igualdade. É boa ou é má? Um dia é igual ao seguinte. Um carro é igual ao outro. Cada ano se filmam quinhentos filmes com o mesmo final. Cada semana ouves cinquenta canções parecidas. Fabricam-se milhões de calças iguais. Constroem-se milhares de casas iguais. Vês o mesmo anúncio centenas de vezes. Repetem-te as mesmas ideias, as mesmas frases. De certeza que queremos que seja tudo igual? No Burger King acreditamos que tu és tu. Com as tuas ideias, com os teus gostos. Por isso o Whoper fazes tu, à tua maneira. Não à nossa.
No Burger King dizemos "viva a diferença"!
2005/09/21
Permissão para pensar em Conduzir para melhor
Não consigo perceber a lógica! Para mim é exactamente ao contrário! Na educação, na justiça, na saúde, na economia, o problema passa pelas mentalidades - pela inveja do sucesso alheio, o nivelar pelo nível do medíocre, o paternalismo, a falta de iniciativa e pela falta de coragem. Já no problema da sinistralidade nas estradas, os portugueses comportam-se como qualquer outro europeu.
Se o problema é o excesso de velocidade, experimentem conduzir na Itália, na Alemanha, na Áustria... Se o problema é a condução agressiva, experimentem fazer uma pequena asneira de condução na Alemanha, onde o nível de irascibilidade é muito superior! Parece-me que ninguém repara nisto. E aceitam, com o provincianismo bacoco típico dos portugas, que lhes chamem imaturos, bêbados, perigosos e assassinos. E ainda aplaudem quando o estado lhes acossa a polícia! Realmente, acho que lhes estão a passar é um atestado de estupidez, por enfiarem o carapuço das orelhas de burro! Só lhes falta zurrar!
O estado tem-se limitado a fazer leis e aumentar a repressão. Nem a criminalidade tem sido reprimida com tal veemência! É a polícia à paisana, é a caça à multa, é o aumento das coimas, é limitar o acesso à compra de automóveis através de um imposto injusto, é impedir o acesso à Carta de Condução (com testes que não são mais que um quebra-cabeças e que em pouco ou nada contribuem para aumentar a segurança nas estradas).
E as contrapartidas? Nada! Mais repressão: é o dia sem carros em sítios impossíveis, é passadeiras-lomba, é impedir o estacionamento, é impedir a circulação e não dar alternativa credível.
E tudo não passa de uma operação de cosmética e de muita demagogia!
Analisadas friamente as estatísticas de excesso de velocidade não as confirmam como a causa de acidentes. O mesmo acontece com o álcool. Claro que são causa de acidentes! Mas não são "a razão" de fundo! Ao estar a colocar a ênfase na baixa da velocidade de circulação, o estado está a desperdiçar o dinheiro dos contribuintes. E porque tão grande investimento nos Auto-Estradas se não é aí que acontecem a maioria dos acidentes? Mais desperdício - mais uma operação de marketing: aparecem na televisão os bólides da GNR, enchem o olho ao portuga com velocidades altíssimas, mas contribuem numa margem mínima para evitar os acidentes. No fundo, Os acidentes no último ano diminuíram porque houve menos chuva - o indicador mais consistente na análise estatística - não foi consequência da maior repressão.
OK! Então se o excesso de velocidade e o álcool não são as grandes causas da sinistralidade rodoviária, então quais são as causas?
Já estou como o meu colega bloggista: "Pensem suas antas"! Basta sair de Portugal para perceber o que mata os portugueses: as estradas!
1) Portugal deve ser o país com a maior percentagem de estradas importantes a passarem no meio de povoações. Pensem numa estrada nacional e contem o número de povoações que atravessa: incontáveis! Claro que isso só pode dar em acidentes. Basta um descuido. Basta um acidente. É humano! O que é desumano é deixarem os itinerários principais dos portugueses terem muito mais zonas perigosas do que os dos outros países.
2) Nunca estive em nenhum país na Europa onde a qualidade do alcatrão das principais estradas e auto-estradas seja tão mau como aqui: uma chuvinha transforma qualquer estrada portuguesa numa pista de patinagem artística para automóveis. Mesmo a baixas velocidades! Duvido que o investimento em piso drenantes e tecnologia de escoamento de águas seja mais caro que suportar os custos de hospitais e sistemas de segurança e socorro.
3) Os portugueses são obrigados a andar de automóvel. Os transportes públicos só o são de nome e, na grande maioria, não são alternativa ao automóvel.
Quando eu vivia na Zona de Oeiras e trabalhava em Sete-Rios, demorava cerca de 2 horas a chegar ao trabalho de transportes públicos. Se fosse no Inverno chegava encharcado de chuva, se fosse de Verão chegava encharcado de suor. Ainda por cima, não podia fazer a voltinha de deixar as crianças na escola. Claro que mais valia os 40 minutos de sofrimento no caos do trânsito (incluindo deixar as miúdas na escola) e preservar a minha sanidade mental (e da minha família).
Já em Munique, eu posso atravessar a cidade de transportes públicos em 30-40 minutos. Estou a falar do equivalente a ir do Cacém a Moscavide em 40 minutos! Saio de carro até à estação de metro ou comboio mais próxima e estaciono o meu carro num parque coberto, sem gastar mais do que 1€ por dia! E posso levar o carrinho do bebé, a bicicleta (ou, simplesmente, o meu cão!) sem pagar mais e sem que me seja recusada a entrada em qualquer autocarro, comboio ou eléctrico. Isso quer dizer que, em vez de ter de acordar de madrugada para ir levar as crianças ao colégio, perder duas horas para chegar ao trabalho de transportes, trabalhar oito horas e voltar a ver os meus filhos ao fim de 12 horas, eu posso sair de casa comodamente e estar 5 minutos depois a apanhar o transporte público, aproveitar os 30 mins de transportes para pôr a conversa em dia com os miúdos, deixá-los numa escola perto do meu trabalho (onde poderei almoçar com eles), e ir lá buscá-los ao fim das 8 horas de trabalho. E no meio disto tudo ainda presto um serviço ao planeta - ajudar a limitar o aquecimento global - e à minha comunidade - ajudar a baixar os níveis de poluição aérea e sonora e diminuir o trânsito. Diminuir o número de veículos na estrada é aquilo que faz mesmo baixar o número de acidentes. Nestas condições, eu só ia de carro para o trabalho se fosse parvo!
A verdade é que neste país os transportes públicos não são públicos. Ou então as mães com bebés não são consideradas público, porque não podem entrar com o carrinho nos transportes. Neste país os transportes são para os muito pobres ou para os que têm a sorte de ter um percurso simples que se adapta ao percurso dos transportes. Os que têm dinheiro para comprar um carro são obrigados a engrossar as filas de trânsito: é que não existem parques de estacionamento decentes perto das estações de comboios. Neste país os transportes públicos não são para o público, porque os horários são feitos a pensar nos turnos dos trabalhadores das empresas prestadoras do serviço e os percursos feitos a pensar em enlatar o máximo de pessoas em cada carregamento.
Por isso, acho que o dia Europeu sem transportes não é mais do que uma pouca vergonha: um bando de políticos falaciosos obriga os portugueses a passarem um mau bocado para fazer de conta que planearam um sistema de transportes que funciona e que retira, efectivamente, os carros das estradas!
4) Quem sinaliza as estradas não percebe nada de sinalização. Não estou a dizer que não saibam a legislação sobre sinalização e não saibam as regras de colocação de sinais rodoviários (embora às vezes nem isso!). Estou a dizer que não percebem nada de sinalização. São técnicos e sabem as legislação, mas pouco percebem do assunto.
Só assim se explica que numa estrada principal com alguma inclinação e um fluxo de tráfego jeitoso seja colocado um sinal de Stop para dar prioridade a um entroncamento manhoso, provocando uma média de 3 acidentes diários durante o tempo em que existiu.(1)
Evidentemente, é impossível mudar hábitos de anos, do dia para a noite! É impossível mudar a natureza do ser humano. Pensar que só porque alguém lá pôs um Stop, um entroncamento provisório passa a ter mais importância que a estrada principal, é de quem não sabe nada do que anda a fazer. É de quem não sabe o mínimo de comportamento humano, da forma como percebem os sinais e lhes reagem (e, já agora, da distância que um veículo percorre até se conseguir imobilizar). Afinal quem conduz são pessoas e é com elas que temos que lidar. Contrariar a sua natureza só vai dificultar o trabalho.
Um técnico versado na legislação sabe tanto de sinalização rodoviária como um professor de português sabe escrever romances: pode saber tudo e pode não saber nada! Porque saber as regras não é tudo. É preciso ver para além das regras escritas. No caso da sinalização (e do desenho das próprias estradas) é preciso perceber o contexto em que se está a trabalhar (será que a estrada já existe há muito tempo? Qual o fluxo de tráfego? Qual a velocidade média dos veículos que lá passam? Qual a inclinação? O tipo de piso?), perceber que estamos a trabalhar para as pessoas e que as pessoas são "animais de hábitos", que só conseguem absorver um determinado número de novas informações visuais por segundo, que têm de ter tempo de reagir ao que vêem, têm de reagir de forma correcta e precisam de uma certa tranquilidade para se concentrarem na tarefa de conduzir.
Os senhores técnicos gastariam melhor o seu tempo estudando melhor o comportamento humano e a melhor forma de sinalizar para as pessoas.
O que acho ridículo é que, por um lado, só sabem regras e, por outro, inventam mal. Por exemplo: quem vem do Montijo (IC3) para entrar na A12, em direcção à ponte Vasco da Gama, ou quem desce a IC17 da CREL para Odivelas depara-se com um estranho sinal de limite de velocidade: num fundo verde fluorescente aparece um sinal de limite de velocidade. Epá, os sinais só tem duas cores por alguma razão! E não foi porque a tinta era cara quando se inventaram! Verde fluorescente para o fundo? A maioria dos automobilistas nem lhes liga, por mais se parecerem com publicidade a um circo do que com sinais. Julgo que, para chamarem mais rapidamente a atenção, os sinais só têm de aumentar de tamanho. Essa é a regra e seria o mais sensato. Mas os senhores técnicos decidiram inventar e só contribuem para mais uma distracção. Um sinal que poderia ser assimilado em milésimos de segundo obriga a que se estranhe, se olhe e se pense sobre o que se viu para só mais tarde (quem sabe tarde demais) se poder reagir.
A sinalização é, em muitos países (e nalguns locais bem geridos, mesmo em Portugal) um factor de tranquilidade, uma ajuda que o condutor agradece e lhe permite concentrar-se na condução. Em Portugal, acaba por ser mais um factor de stress. O stress diminui a concentração e a disponibilidade para as coisas importantes.
O excesso de má sinalização, de muitos sinais todos juntos, impossíveis de ver, e limites de velocidade impossíveis (já alguém tentou andar a 20Kmh - o típico sinal em zonas de obras?), acabam por criar o hábito do desrespeito e da desconsideração. Exactamente aquilo que não queríamos!
(5) Falta de manutenção das estradas e da sinalização. Na maior parte das estradas de uma cidade a sinalização horizontal está gasta e desaparecida. Na maior parte das estradas secundárias as marcas no pavimento nem sequer existem. Fora das localidades os sinais verticais são deixados para apodrecer, sem qualquer tipo de manutenção. É normal não ver sinais devorados pelos arbustos da berma (são para a flora local uma fonte rápida de minerais) ou tão gastos que já não se sabe o que neles ler, ou tão velhinhos que indicam velocidades ridiculamente baixas, só aplicáveis em calhambeques de colecção.
Se juntarmos isto aos buracos no pavimento, às lombas acidentais (e às propositadas), aos altos e baixos e às bermas em mau estado, temos um nível de stress tal que não permite ao condutor concentrar-se no que devia. Anda mais preocupado com as suspensões e a durabilidade dos pneus e se vai conseguir fazer um zigue-zague pelo meio daquelas duas poças ali à frente.
Isto quando as lombas não aparecem numa estrada que dá a ideia de se poder viajar a uma velocidade que o piso não permite (como, por exemplo, o Eixo Norte-Sul, em Lisboa), provocando acidentes aparatosos aos mais incautos. Num sistema sério, os responsáveis pela existências dos buracos no piso ou das lombas seriam responsabilizados e teriam o destino que merecem - despedimento, impossibilidade de voltarem a fazer outra estrada, multa e prisão se fosse o caso disso. Mas cá no burgo, os homicídios por negligência só são atribuídos aos condutores!
(6) As autoridades não se dão ao respeito. Em qualquer país civilizado a polícia aparece identificada e actua justamente. Cá faz caça à multa, não consegue fazer cumprir a excessiva legislação e anda a brincar aos índios e cowboys com o pessoal. E já se sabe que, nos dias que correm, os cowboys estão muito mal vistos!
Que eu saiba a função da polícia é fazer cumprir a lei, mas já percebi que os próprios não sabem que fazer cumprir a lei não é o mesmo que deixar prevaricar e depois aplicar multas.
Já chega, que já enjoa. Já chega para pensar sobre a verdadeira origem das coisas, sobre a demagogia dos mesmos de sempre e a estupidez dos que se enxovalham a si próprios ao repetirem a mesma treta de sempre só para não terem de usar os miolos.
(1)Isto aconteceu mesmo, no concelho de Cascais, numa estrada principal que liga Sassoeiros a São Domingos de Rana. O Stop foi lá colocado do dia para a noite, num local onde antes não existia nada e depois existiram sinais luminosos. A alteração radical não foi de nenhuma forma salientada e até os sinais luminosos lá continuavam, embora apagados. Até o sinal de Stop era um daqueles simples que mal se vê à distância.
2005/07/12
Pedagogias
«O poder político em Portugal tem manifestado uma irresistível vocação paternalista em relação a um povo supostamente incapaz de ultrapassar a fase infantil e aceder à idade adulta. Salazar considerava que os portugueses não estavam preparados para a democracia, o que justificou a perfeita boa consciência com que impôs a sua ditadura de mestre-escola a alguns milhões de crianças irresponsáveis e desprotegidas. Ainda hoje, porém, decorrido o mais longo período em que o País viveu em regime democrático, o paternalismo político permanece inabalável, apear da diversidade dos conceitos pedagógicos. Os portugueses, essas eternas crianças, ora são tratados com severidade quase sádica, à boa e velha maneira dos internatos, ora são apaparicados com uma suavidade enternecedora, como acontece nos mais permissivos jardins-de-infância.
Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite pareciam pedagogos da escola antiga em que os ralhetes e a palmatoria eram instrumentos insubstituíveis de persuasão. O método não resultou e as pobres criancinhas arriscaram-se a ficar definitivamente traumatizadas com o miserabilismo da tanga. Mas o novo Governo socialista, fiel à brandura da herança deixada por Guterres, cuidou logo de sossegar as criancinhas e liberta-las de terríficos pesadelos. Daí a pedagogia dos pequenos passos, quase silenciosos, para não perturbar as suas inocentes brincadeiras. E quando alguém se atreve a introduzir cores mais sombrias na aguarela garrida, logo uma mão generosa aparece a recompor a harmonia da paisagem.
O paternalismo político (seja ele sádico ou suave) só alimenta o infantilismo cívico, num interminável ciclo vicioso. E é um dos principais factores de bloqueio do País. Precisamos do contrário disso: uma pedagogia de simples bom senso, uma linguagem de equilíbrio, verdade e frontalidade que respeite a condição adulta dos eleitores.»
in Diário de Notícias de uma 6ªFeira do mês passado...
Só gostava de ver a política e o jornalismo terem a coragem de serem "frontais", "verdadeiros" e "respeitarem a condição adulta dos eleitores [Portugueses]".
2005/04/12
O problema é a Primavera!
O problema não é as coisas aqui demorarem muito. O problema não é os alentejanos terem falta de expectativas e (logo) de exigência. Não é o comércio e a actividade empresarial estar envelhecida e alheada. O problema não é ter de andar 1 ou duas horas para ir comprar roupa para mim e para a família. Não é por só cá existirem restaurantes de comida tradicional alentejana (sim, existe cá um chinês - só falta um italiano!). Nem sequer é o facto de ser praticamente impossível encontrar com quem se possa confraternizar (tudo foge para as grandes cidades). E actividades culturais há de sobra.
O problema é a Primavera! Eu sempre tive "problemas" com a Primavera - mas aqui é demais! Neste Alentejo verdinho, com o calor a apertar, o cheiro a erva fresquinha e a plantas aromáticas que anda no ar, o chilrear da passarada, o zunir dos insectos como pano de fundo, o som dos badalos das vaquinhas a pastar e o sol a por-se por detrás daqueles montes encabeçados pelos Sobreiros, deixa-me de rastos! Literalmente! Sobe-me a Adrenalina, aumenta-me a pulsação! A energia que este sitio transmite é imensa! Respiro fundo e cheira-me a paixão, a drama, a comédia, a correrias, a aventura! Porra! Perco a vontade de trabalhar. Apetece-me ser irresponsável. Partir à descoberta. Encontrar uma alma gémea, apaixonar-me e viver uma aventura.
Tou lixado! Porque eu tenho de trabalhar, tenho a minha casa nova para aprontar, já encontrei a minha alma gémea há uns anos (e acho que isso é incompatível com mais uma alma gémea!) e tenho uma família para cuidar.
Pronto! No mínimo, apetece-me ir andar de bicicleta. No mínimo, que o trabalho seja mais de pensar e falar do que de trabalhar mesmo. No mínimo, que possa ir dar uns passeios ao fim-de-semana!
Mas será que chega? Ai a adrenalina!...
Bolas, os meus amigos bem me avisaram que isto não ia dar certo....
2005/03/16
Procura-se: pai do Jornalismo Português
O que sempre houve muito bom em Portugal foi o cronista e o comentador. Aí existe uma bela tradição.
Assim de repente lembro-me de um monte de fantásticos comentadores e cronistas: Vasco Pulido Valente, Miguel Esteves Cardoso, Miguel Sousa Tavares, Mário Bettencourt Resendes, Clara Ferreira Alves, Marcelo Rebelo de Sousa, Sónia Morais Santos, Fernando Pessa... E se andássemos para trás no tempo, íamos encontrar muitos e célebres cronistas/escritores.
Já jornalistas marcantes, assim de repente, só me lembro de duas: Maria João Avillez e Margarida Marante.
Em Portugal, as estrelas da informação não são os jornalistas - são os comentadores e os cronistas. E os jornalistas não deixam de lhes cobiçar o lugar. Em Portugal, a ambição de qualquer jornalista acabado de formar ou em formação não é dar notícias, é dar opiniões! É mostrar a sua inteligência e cultura - o seu ponto de vista absolutamente superior.
Não compreendem o papel fundamental do jornalista como informador imparcial. Não entendem os media como um serviço a cidadãos inteligentes. Somos todos burros e precisamos, mais do que de factos, que nos expliquem quem é mau e quem é bom, o que é bom e o que é mau, o que devemos fazer e o que não devemos fazer, o que vai acontecer e o que devemos pensar. O que seria deste país sem a clarividência que os jornalistas espalham parcimoniosamente pelas notícias que "divulgam"? Um paraíso - digo eu!
Quando o pivot da CNN pergunta ao correspondente no local o que ele acha, ele começa por dizer "Não sei, John ..." ou "O que me parece é que..." e desbobina uma chusma de factos que nos permitem pensar e chegar às nossas próprias conclusões: a história que estava para trás daqueles acontecimentos, talvez alguns paralelos com acontecimentos similares, os protagonistas e as suas motivações - o Contexto, as afirmações de peritos, os comentários de vários quadrantes. Só no final é que o repórter dá, humildemente, a sua opinião, como quem diz "desculpem lá, tenho de dar a minha opinião, mas cada um tem direito a tirar as suas próprias conclusões".
Cá a coisa é muito mais simples: o repórter sabe pouco ou nada sobre a história do acontecimento ou sobre outros similares. Mesmo que saiba, não tem tempo para estar a relacioná-los. O contexto fornecido ao público é mínimo e resume-se ao tempo e local presente. As opiniões veiculados são as de quem estiver mais à mão. O jornalista trata de colorir a reportagem com os sentimentos dos participantes, como se tivesse o poder da omnisciência. Quando lhe perguntam a opinião, dispara o seu original juízo sem demora, com medo de fazer figura de parvo, pois é dever dos jornalistas dar aos portugueses a oportunidade de apreciarem a inteligência suprema com que todos são prendados.
Abro um jornal Português e vejo a notícia: "O Secretário de estado Fulano de Tal mandou fazer não-sei-o-quê, mas agora está tudo lixado, a coisa está empancada e as dívidas acumulam-se". O Portuga lê esta notícia e pensa (se não foi deixado já dito nas entrelinhas): "Este sacana só quer é encher o bolso, arranjou este pseudo-trabalho para dar a um amigo para fazer e meteu uma parte ao bolso". Pior ainda: não sabe para que servia o trabalho que se mandou fazer, porque é que aconteceu o empancanso nem como se resolverá. Resumindo: como sempre, os portugueses são uma cambada de estúpidos interesseiros impulsivos que não têm inteligência para pensar e só querem é encher o bandulho.
A mesma notícia num jornal qualquer alemão ou francês seria um bocadinho diferente: "O Secretário de estado Fulano de Tal, com o intuito de resolver o problema assim-assim, decidiu fazer não-sei-o-quê, com o que esperava obter determinados resultados. Afinal revelou-se que o que acontece é outra-coisa, empancando o sistema. As ideias em cima da mesa para resolver o assunto são esta e aquela que tem estas e aquelas vantagens e desvantagens". Ou seja: neste país as pessoas são inteligentes e pensam. Tomam decisões baseadas em critérios e quando as coisas correm mal (o que é natural) fazem ajustes.
Enquanto o jornalismo português quer mostrar a sua superioridade pela arrogância e paternalismo, o jornalismo sério mostra-se superior pela sua humildade.
Para mim, que gosto de ser tratado com inteligência e sem paternalismos, como alguém que pode tirar as suas próprias conclusões, os aspectos do jornalismo estrangeiro que tanto me agradam são:
1. Dar o contexto
O que trouxe as coisas a este ponto. O que se pretendia no início e o que afinal aconteceu.
2. Inibir-se de dar colorações partidárias ou emocionais veladas
As abertamente expostas são válidas, uma vez que permitem ao receptor avaliá-las com espírito crítico.
3. Apresentar opiniões de peritos credíveis
Não sucumbir à voz do povo e ao senso-comum que, muitas vezes, no calor do momento apresenta opiniões altamente enviesadas, mas apresentar opiniões de fontes avalizadas, credíveis e insuspeitas.
4. Dar um contexto histórico
Fornecer dados sobre acontecimentos similares que ajudem a raciocinar sobre o assunto exposto e contribuam para o enriquecimento cultural do público.
5. Apresentar os factos todos
Mesmo os difíceis de encontrar.
6. Não ser paternalista
7. Abordagem positiva
Partir do princípio da boa-intenção dos envolvidos, salvo evidência em contrário.
8. Abster-se de apresentar conclusões ou juízos.
Esta abordagem positiva permite fazer um jornalismo inteligente, não arrogante mas superior. Todos são tratados como seres pensantes, de uma forma positiva, obrigando o receptor a avaliar os factos noticiados à luz das suas ideologias e convicções. Tirando as suas próprias conclusões, sem o fazer contra nada nem ninguém.
Portanto, para mim, ainda está para nascer o pai do jornalismo português. Aquele jornalista que estabelece um estilo e um código de conduta sérios, que se torna uma "estrela" jornalística pelo seu trabalho como jornalista (e não como cronista) e que possa servir de modelo para muitos profissionais do seu ramo. Desejo-lhe uma grande prole!
Estou enganado? Houve pai e existem filhos e netos e sobrinhos? Mandem-me os factos e eu prometo retratar-me!
2005/02/21
Yupi, ganhamos as Eleições !
Porra, deixem-me desabafar: odeio mentecaptos! Cambada de bestas quadradas esfuziantes que invadem as praças do país mal começa a contagem dos votos, como se algo de bom tivesse acontecido. Oh, povinho anormal... esta figura ridícula sempre que há eleições, para passados meses condenarem, chacotearem e deporem os mesmos que levaram em braços. Digam-me uma coisa: mas há alguém tão estúpido que acredite que haja algum candidato ao governo desta fanada republica, merecedor de tais aplausos? Ainda por cima antes de ter feito o que quer que fosse? Será para lhe dar coragem? ou afagar o ego? Credo, mais não, já metem nojo como são!
Agora que «ganhámos» as eleições vamos ficar todos muita bem. O desemprego vai pela primeira vez descer abaixo dos 0% (pois, 150.000 novos empregos, não é?), os ordenados vão aumentar mais do que o próprio PIB, vamos fazer mais estádios, mais aeroportos, mais demagogia... pá, tudo o que quiserem!
Mas se calhar, mesmo assim, ainda vai haver quem diga mal... (fogo, eu?...) Vão dizer que são políticas imediatistas que só enterram mais o país em dividas. DAH! O dinheiro não é um bem escasso. O Zé Povinho, o tal que eu digo que é reincidentemente estúpido que nem uma bota, não vê um boi de matemática, quanto mais de economia ou finanças. Vê é muita novela, daquelas que é só brasileiros que não fazem nenhum e vivem em mansões. Por isso vou explicar devagarinho: agora gastamos à fartazana tudo o que tivermos e o que não tivermos. Vida boa, defecamos para o monte de dividas que já temos. Aliás, duplicamo-lo, show de bola! Porreiro? Votam em mim não votam? Obrigado! Pronto, estava a mentir, era só para ganhar as eleições! Tansos!
Não, esta é a estratégia da salvação, devemos dar graças a quem a levar avante. Eu estou cheio de esperanças que daqui a uns anos, quando formos a Etiópia da Europa, renasçamos das cinzas. Pode ser que surja um ditador impiedoso (um cabrão que mande a demagogia pró... catano) ou pode ser que sejamos invadidos por um pais civilizado. Não, Espanha não, são espertos demais para quererem este antro de tótós, mas Marrocos por exemplo, já era bem porreiro!
Cenas do meu próximo blog:
Eu gosto dos Tugas... O Tuga é um gajo altruista. Paga do seu bolso um rol de reformas milionarias a que deputados e ministros têm direito após uns anitos de mafia e corrupção, mas é incapaz de lhes pagar um bom ordenado. Para o bem deles, sabem porquê? Para não terem de descontar muito IRS e Segurança Social ! E também os ajuda a manter uma imagem menos má, que é para ganharem eleições...
2005/02/18
A Utopia, essa libertadora utopia!
Não, mas era lindo...
Façamos um case-study de aplicação de uma delas, tão boa como outra qualquer:
Todos os anos os metalomecânicos, operadoras têxteis, trolhas, sindicalistas, trabalhadores intelectuais e demais camaradas teriam os seus ordenados aumentados pelo menos o dobro do valor da inflação. Não! Isso seria demasiado esperto... Então pronto: todos os anos os ordenados seriam aumentados aquilo que os sindicatos pedissem. Tótil! Tinha outra vantagem: assim o regime não ficava mal visto e não era deposto pelo Batatoon (como lhe chama um amigo meu).
Agora para algumas das minhas amigas: os hipermercados e centros comerciais seriam imediatamente destruídos. Ah pois, são símbolos do perigoso capitalismo! Mas não fiquem tristes, fofas: esta grandiosa nação teria boas notícias também para vocês (LOL): o Estado implementaria Kolkoses, como nos tempos áureos desse belo império que foi a União Soviética, e cada cooperativado teria direito a uma casa ajardinada, um estábulo, um curral, um chiqueiro, um galinheiro e uma vaca por casal. Então lindas, não delirariam de felicidade?
E era tudo nacionalizado... mas mesmo tudo.
Porquê? Bolas, pensem, sua antas: para impedir finalmente que as empresas fossem à falência e deixassem os pobres trabalhadores desempregados. Porra, não me digam que ainda não decoraram: os patrões e o proletariado (já cá faltava) é que despedem os queridos dos trabalhadores, não os empregam, pagam-lhes mal, não os deixam ir à casa de banho...
Ah, e as importações seriam proibidas. É que mal essas empresas estatais encontrassem concorrência estrangeira faliam. Quer dizer, até não, nalguns raros casos de empresas que exportavam alguma coisa o estado subsidiaria as suas empresas com injecções de capital ad eternum e mandava a sua máfia secreta capar esses porcos nojentos dos gestores estrangeiros.
Bem, às tantas o Estado ia estar falido, à rasca, (sim, pior do que está!), e como tudo era «o Estado», os trabalhadores, as empresas, os serviços essênciais e os não essênciais, tudo pararia. E como, ainda por cima, defendem que relações internacionais são para ter, no máximo, com países tão pobres como o nosso, não teríamos a quem pedir dinheiro emprestado. Mas teríamos atingido o auge, porque sempre foi esse o objectivo dessa hipotética doutrina - nivelar o mundo todo pelo mesmo nível: o nível da grandessíssimo merda.
Eu não estou a falar de nenhum partido, fique claro! ...Estou a falar de mais do que um ;-)
E quem sou eu para falar? Não interessa, sou pai! LOL


