Há uns anos atrás estava a explicar ao meu pai o plano do meu sócio para dentro em breve ganharmos um bom dinheiro mas só trabalharmos umas 4 horas por dia, baseados na manutenção do nosso produto de software, quando ele me deitou um daqueles olhares. Não sei se realmente disse tudo o que eu me lembro ou se foi mais o olhar acompanhado de umas poucas palavras. Basicamente, disse-me que eu devia estar a perder o juízo, que não há dinheiro sem trabalho, que uma pessoa na casa dos 30 anos não podia estar a fazer planos de reforma tão cedo. Fiquei com a impressão que estava a perder o respeito ao olhos dele. Uma posição inusitada, achei eu, vindo de uma pessoa tão humilde.
O que é certo é que nos 3 ou 4 dias seguintes todo aquele plano do meu sócio se desvaneceu na minha cabeça porque o compreendi completamente impraticável no caso da minha empresa (necessidade de estar sempre na crista da onda, exigência dos clientes e concorrência) mas também porque me apercebi de como estas coisas funcionam na vida real.
Olhando para a história das pessoas de sucesso (ou apenas de pessoas com bons rendimentos), percebe-se que chegaram a esse nível porque fizeram sacrifícios ou arriscaram muito (às vezes as duas coisas) ou então porque herdaram a situação. Interessam-me as duas primeiras formas e não me interessa a última, até porque esta última é sempre transitória para a normalidade ou para as outras duas.
Olhando para a vida de vários empresários de sucesso, portugueses ou estrangeiros, percebe-se facilmente que sempre sacrificaram a sua vida familiar. Levantam-se cedo e chegam tarde a casa. Só vêm a família depois do jantar. Não é à toa que, muitas das vezes, a mãe de família tem de ficar em casa para compensar a vida profissional do pai. Por exemplo, Bill Gates, apesar de toda a sorte do mundo, só conseguiu tempo para uma vida familiar aos 40 anos. Os actores de Hollywood ganham rios de dinheiro mas a sua vida familiar ressente-se sempre do seu ritmo de trabalho e quando se dedicam efectivamente à família acabam por desaparecer dos ecrãs. Mesmo um “simples” jogador de futebol como o Ronaldo, teve de abandonar a família aos 12 anos para se dedicar à sua arte – não deve ter sido fácil.
Noutros casos de sucesso correm-se grandes riscos daqueles “tudo ou nada”. Já o meu pai me dizia “quem não arrisca não petisca”. Um grande número de negócios de sucesso começam com pessoas de coragem que abandonam grandes empresas e hipotecam todos os seus bens (e à vezes os da família que acredita neles) para iniciarem a sua própria empresa.
É como um sistema de vasos comunicantes, ou uma balança – tendem a ficar todos ao mesmo nível, isto é: na média. Sempre que alguém quer fazer algo acima da média tem de abdicar de alguma coisa: de tempo, da família, da segurança. Muitas vezes dou por mim a pensar “eu não era capaz de abdicar das coisas que esta pessoa abdicou para chegar onde chegou”. É uma posição que assumimos diariamente, temos 4 vectores: família, sucesso profissional, tempo, segurança. Se apostarmos na família, vai sobrar menos tempo para nós e para o trabalho, se apostarmos no nosso tempo, vai sobrar menos para dividir entre o trabalho e a família, se apostarmos no sucesso profissional vai sobrar menos tempo para nós e para a família. Provavelmente, se apostarmos mais na família o trabalho pode ficar menos seguro, se apostarmos tudo no sucesso profissional vamos ter de assumir riscos ainda maiores.
Cada um de nós sabe se prefere mais o equilíbrio ou a vertigem do desequilíbrio. Se prefere o equilíbrio, precisa de manter um perfil menos agressivo e saber escapar a situações mais exigentes, mantendo a sua integridade frontalmente sem ludibriar expectativas. Se não pode viver sem a vertigem, convém saber até que ponto quer ou pode ir e jogando com que variáveis. O difícil é perceber de antemão em que pratos da balança (e quanto) pesam os passos que damos. A arte está em saber manter a dose de desequilíbrio que conseguimos gerir.
Longe da confusão e do rebanho.
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