Longe da confusão e do rebanho.

2005/07/12

Pedagogias

por Vicente Jorge Silva

«O poder político em Portugal tem manifestado uma irresistível vocação paternalista em relação a um povo supostamente incapaz de ultrapassar a fase infantil e aceder à idade adulta. Salazar considerava que os portugueses não estavam preparados para a democracia, o que justificou a perfeita boa consciência com que impôs a sua ditadura de mestre-escola a alguns milhões de crianças irresponsáveis e desprotegidas. Ainda hoje, porém, decorrido o mais longo período em que o País viveu em regime democrático, o paternalismo político permanece inabalável, apear da diversidade dos conceitos pedagógicos. Os portugueses, essas eternas crianças, ora são tratados com severidade quase sádica, à boa e velha maneira dos internatos, ora são apaparicados com uma suavidade enternecedora, como acontece nos mais permissivos jardins-de-infância.


Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite pareciam pedagogos da escola antiga em que os ralhetes e a palmatoria eram instrumentos insubstituíveis de persuasão. O método não resultou e as pobres criancinhas arriscaram-se a ficar definitivamente traumatizadas com o miserabilismo da tanga. Mas o novo Governo socialista, fiel à brandura da herança deixada por Guterres, cuidou logo de sossegar as criancinhas e liberta-las de terríficos pesadelos. Daí a pedagogia dos pequenos passos, quase silenciosos, para não perturbar as suas inocentes brincadeiras. E quando alguém se atreve a introduzir cores mais sombrias na aguarela garrida, logo uma mão generosa aparece a recompor a harmonia da paisagem.


O paternalismo político (seja ele sádico ou suave) só alimenta o infantilismo cívico, num interminável ciclo vicioso. E é um dos principais factores de bloqueio do País. Precisamos do contrário disso: uma pedagogia de simples bom senso, uma linguagem de equilíbrio, verdade e frontalidade que respeite a condição adulta dos eleitores.»


in Diário de Notícias de uma 6ªFeira do mês passado...


Só gostava de ver a política e o jornalismo terem a coragem de serem "frontais", "verdadeiros" e "respeitarem a condição adulta dos eleitores [Portugueses]".

1 comentário:

jxp disse...

Uma vez que fosse, para se ver a diferença (para melhor).